quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A História se repete - dificuldades do atendimento em atenção básica de saúde. A continuidade depois de décadas devido ao preconceito e desinformação das classes mais abastadas





Agente Indígena de Saúde com a visita domiciliar da Médica e do Dentista (eu que fotografei), numa reserva indígena Yanomami, em 2005.


dinâmicas de grupo são rotina nas Oficinas numa USC - 1997



 formação de técnico indígena de laboratório (uma das maiores mazelas que "levamos" aos indígenas, foi a tuberculose), facilmente identificável por técnicas de coloração do bacilo de Koch, para agilizar o atendimento médico em aldeias sem acesso, além de avião ou barco, 2005

USC no DF em  1997


 adianta tratar da dor de estômago deste usuário?    


Por Cristiano Melo



Em 1997, passei no concurso do chamado à época PROGRAMA SAÚDE EM CASA (PSC), estratégia de implementar o, em desenvolvimento, Programa Saúde da Família (PSF).

Naquele momento, era um programa arrojado, com cada equipe de SC formada por um médico, um odontólogo (nesta época nem constava no PSF), um enfermeiro, três técnicos de enfermagem, um técnico em higiene dental, um auxiliar de consultório dentário e nove agentes comunitários de saúde (podendo variar a depender das particularidades da região, se rural, urbana, etc.). A unidade de saúde em casa situava-se estrategicamente dentro da própria comunidade, onde a cada USC tinha a responsabilidade de atender cerca de 4000 habitantes, em torno da unidade.

A USC estava na atenção primária de saúde, e, em casos de atendimentos especializados, atenção secundária, fazia-se o encaminhamento para o Centro de Saúde mais próximo. Em caso de atendimentos bem específicos e de alta complexidade, o Centro de Saúde encaminhava ao Hospital Regional mais próximo. Esta organização em pirâmide, dos serviços de atendimento em Brasília resultou diretamente em desaparecimento de filas nos Hospitais, uma vez que uma “dor de barriga” se resolvia na USC. A longo prazo, e daí eu posso falar do CPOD (índice utilizado em Odontologia para caracterizar o nível de saúde bucal da população), em um ano de atuação do programa, diminuiu em muito o número de dentes cariados perdidos e necessidade de próteses (CPOD).

Eventos nacionais em que levamos os números que tínhamos atingido em cidades carentes do Distrito Federal, como Santa Maria, Samambaia, Ceilândia, Paranoá e Planaltina, naquela época, pois hoje estas cidades têm outra realidade sócio-econômica, deixaram os especialistas em saúde pública e coletiva em estado eufórico. Pela primeira vez, uma estratégia factível poderia finalmente reverter as necessidades na organização da atenção primária de saúde, desafogando o resto da cadeia.

O PSC fazia parte do projeto político do então Governador do DF, Cristovam Buarque, àquela época filiado ao PT, com a ajuda de pessoas conhecidas no meio de saúde pública nacional, como Maninha, Arlete Sales e Fátima Sousa (que recebeu recentemente um prêmio internacional por tecnologias de promoção de saúde, nos EUA).

Foi o trabalho que mais me deu prazer em toda a minha vida até hoje, 2010. Eu e todos os meus colegas, que tinham um perfil verdadeiramente diferenciado, trabalhávamos mais do que as 40 horas determinadas, não raro estávamos na comunidade durante os finais de semana para realizar promoções de saúde temáticas, ou apenas para conviver mais ainda com os agentes e conhecer mais e mais a realidade local (pura paixão).

Infelizmente, com a troca de governo, pois ganhou a eleição daquele ano o Roriz, hoje conhecido nacionalmente pela sua ficha suja e por colocar sua esposa para concorrer o segundo turno aqui no DF. Fomos demitidos em Janeiro de 1999, e o PSC ficou e existe até hoje na memória dos especialistas, como uma, ou talvez a única, boa prática radicalmente efetiva de organização dos serviços de saúde no Brasil.

Mas, o motivo deste artigo é, além de apresentar o que foi o PSC, pois hoje o PSF não consegue repetir os mesmos dados que atingimos, muitos artigos científicos se referem aos dados do PSC, apontar algo que tem me levado a recordar daquela época, há mais de dez anos, mas não a parte “boa da coisa” e sim a dificuldade que vivenciamos, como pedradas, carros arranhados, ameaças de morte, agressões físicas a agentes comunitários de saúde, enfermeiros e médicos, simplesmente pelas ideias difundidas em massa nessas comunidades.

Eram distribuídos panfletos que tinham títulos como: “a verdade sobre o PT”, “o PT é comunista”, “A família contra o mal”, “O PSC não tem profissionais graduados”, etc. E, nunca me esquecerei de uma senhora de oitenta anos, para a qual já havia moldado sua boca e prensado sua prótese total inferior e superior, pois ela nunca havia tido uma, desde os seus vinte anos quando perdeu todos os dentes, e gritou quando eu estava à sua porta com a prótese na mão para entregá-la: “saia daqui seu filho do demônio! Descobri que vocês comem criancinhas. Não quero nada de vocês. Saiam já daqui”, pegando uma pedra no chão e com toda a sua força, jogou em nossa direção, a equipe de saúde bucal, que caiu bem longe de nós devido à sua limitada força física. Em vão, tentei convencê-la de pelo menos aceitar a prótese, mesmo com xingamentos contínuos sobre mim, e sobre o PT, que era do diabo (só para constar, nem filiado ao PT eu fui um dia), que o padre tinha iluminado as ideias dela.

Foram momentos muito tristes, diretamente proporcional à alegria que sentia em atender aquelas quadras de Samambaia, onde eu estava lotado.

E o que me fez lembrar desta situação, deste exemplo com essa senhora desdentada de oitenta anos é a atual campanha do segundo turno para presidente, onde, novamente, escuto, leio, vejo os mesmos títulos, as mesmas insinuações de figura diabólica do PT e que o PT é comunista, etc. Só que com outros meios de comunicação, pois agora temos internet a cabo, youtube, redes de relações sociais que para mim, é como se tivessem conseguido dar o resto da força àquela senhora, e a pedra conseguiu me atingir no rosto.

Padres excomungam pessoas que votaram/votam no PT, bispos que incitam ao povo que não votem num partido que é contra a família brasileira, que é a favor da morte (novamente a demonização de um partido)

Depois de mais de uma década, pensei que não veria mais o que vivenciei, mas ledo engano, hoje chega a ser pior, e receio que, com tudo isto, aprendi um pouco mais sobre o ser humano, ele é e sempre primará pela ignorância e estupidez.

Triste, triste, triste.  



5 comentários:

  1. Mais do que triste,Cristiano,sórdido.Infelizmente.
    Excelente texto,meu querido.
    Um abraço.

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  2. J.
    essa é uma estória, meus amigos passaram por situações humilhantes e semelhantes, por pura campanha de difamação e demonização, por pessoas fanáticas mas com inteligibilidade e poder para escrever e publicar textos associado à ignorância crítica (analfabetismo informacional) de grande parte da população.
    Obrigado
    abraços

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  3. Querido Cris,
    Realmente desconhecia este projeto de saúde pública em Brasília. Eu, apaixonada que sou pelo tema e defensora do Programa Saúde da Família, fiquei muito triste ao saber que um trabalho tão relevante foi extinto quando mudou a cena política do DF. Mais perplexa ainda porque o PSF é uma estratégia de saúde pública a nível federal e deveria estar acima de qualquer interesse político/eleitoreiro. O PSF tem avançado nos últimos anos, em todo território nacional, principalmente no interior. Os dados estão lá no DATASUS para quem tiver curiosidade. E vai continuar avançando, desde que o cidadão comum aproprie-se de seus direitos constitucionais à saúde, educação, alimentação, moradia, segurança...Eu tenho muita esperança!
    Beijos

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  4. Querida Cris (olha o trocadilho)rs

    Imagino que não o tenha conhecido. Ele foi "abafado" de todas as maneiras possíveis para que não fosse sequer lembrado, como parece que conseguiram por você, que ama (e eu conheço bem esse AMOR) este tema.

    Eu também sou apaixonado pelo Programa Saúde da Família (PSF), sou um dois "malucos" como você que o defendem, além de investir nosso tempo e energia em artigos, livros e explicando aos mais próximos que o Sistema Único de Saúde (SUS) está em nosso dia-a-dia e nem adianta falar mal, ou dizer que não usa o SUS, pois sim, o utiliza quando compra uma simples caneta esferográfica. E o PSF surge (pode me chamar de antigo nesse processo), como estratégia para organizar parte desse sistema tão complexo.

    Em 1995, as discussões em cima de como deveria ser o PSF ainda engatinhavam e existiam exemplos espalhados pelo Brasil, acredito que você conheça a história do PSF, sendo no Ceará o primeiro modelo de PSF efetivado, mas a equipe era formada por médico, enfermeiro e ACS.

    O PSC surgiu com este nome, para destacar, as reivindicações que tínhamos naquela época, a de inserir o CD (foi o primeiro que nos colocou dentro da equipe, mesmo que no projeto do PSF não constasse), que aliás, todos nós 180 (mais ou menos) odontólogos que trabalhou no PSC, de alguma maneira, está agora à frente de projetos, e não mais na "ponta" (tenho saudades), além de colocarmos psicólogos, fisioterapeutas e saúde prisional etc, era muito arrojado e, como escrevi no texto, em um ano, todos os índices simplesmente despencaram. Todo mundo da saúde pública voltou os olhos pra cá e/ou queria vir trabalhar aqui.

    Foram firmados convênios com o Canadá, Inglaterra, Espanha e outros países com saúde pública similar, para que levássemos a boa prática para lá, com o intercâmbio entre profissionais.

    Sei que hoje e era em 1995, uma estratégia nacional de organização dos serviços de saúde, fico feliz e orgulhoso por me sentir parte do processo embrionário do PSF. Acontece que, em alguns municípios, o PSF serve ao Prefeito para que este ganhe a verba, pelos "passo-a-passo, como instituir o PSF em seu município" e a "equipe" se é que é completa, acaba por organizar-se para que o médico vá três vezes na semana, ou que a carga horária seja de vinte horas, uma das ferramentas mais úteis deixa de ser utilizada: a visita domiciliar. Não é feito o levantamento epidemiológico para se conhecer as necessidades reais da região, e por aí vai.

    Óbvio que em nossos encontros, não sei como ainda não nos topamos por aí, nos ABRASCOS, ENACIBs, ENATESPOs, CNSBs, estou em todas, mesmo não estando mais trabalhando diretamente com o PSF, continuo na luta.

    Só uma curiosidade Cris, à época do primeiro governo de transição do FHC pro Lula, pela primeira vez nós, dentistas, fomos convidados para sermos ouvidos, pelo que iria ser o novo presidente brasileiro. À época eu e meu amigo Alex, éramos do comitê científico da FIO, que foi indicada pelo CFO para participar das reuniões com o presidente eleito. Eu e o Alex, fizemos a primeira cartilha de como montar o PSF em seu município, com o CD já completamente inserido na equipe. Esta cartilha foi distribuída, em janeiro de 2003, para todas as prefeituras no país. Criamos o "Brasil Sorridente" e organizamos as CNSB, duas em quatro anos. Nós, dentistas, temos muito a agradecer por termos sido inseridos de fato no PSF neste período, pois até então estava só no papel, bem como todas os outros profissionais que se integraram na atenção secundária de assistência.

    Oposição ao ATO médico, etc.
    Cris já sou meio velho neste caminho, sou até conhecido pela "velha guarda" da saúde pública, mas confesso que estou cansado. E quando encontro um amigo com fôlego ainda, fico feliz e contente, com certeza poderia conversar por dias a fio com vc. (risos)

    beijos

    Cris

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  5. Isso é conversa pra mais de metro, Cris, como dizem no interior! Fico muito feliz por saber que você foi um dos mentores do "Brasil Sorridente", certamente o maior avanço da Odontologia Coletiva, inserindo definitivamente a saúde bucal nos projetos governamentais e principalmente ampliando o acesso da população aos serviços, cumprindo os princípios da Universalidade e Integralidade do SUS! Saúde integral e para todos!

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